terça-feira, setembro 18, 2018
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Paulista, Olinda e Recife são campeões do desperdício de água

Reportagem da FolhaPE

Quando o assunto é perda de água tratada, o município de Paulista, na Região Metropolitana, registra a segunda posição em um ranking com dez cidades brasileiras. Em seguida, vêm Olinda e Recife, ocupando a quinta e oitava posições, respectivamente. O desperdício é causado por vazamentos nas tubulações, erros de leitura de hidrômetros, roubos e fraudes. E, neste contexto, Paulista possui um maior índice, com 67,92%; Olinda, com 62,70%; e Recife, com 61,16%. É o que aponta o estudo do Movimento Menos Perda, Mais Água, da Organização das Nações Unidas (ONU), feito em parceria com o Instituto Trata Brasil e a Go Associados. Os dados são do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) de 2016, os mais recentes, divulgados pelo Governo Federal neste ano.

Apesar de a água ocupar cerca de 71% da superfície da Terra, 97% dessa água é salgada. Dos 3% de água doce existentes, menos de 1% é acessível em rios, lagos ou aquíferos, ou seja, disponível para uso humano. E a escassez de água já é uma realidade próxima. Nas cidades de Paulista e Olinda, por exemplo, os moradores sabem muito bem o valor que tem a água. Desde abril do ano passado, ele sentiram a ampliação no rodízio de abastecimento pela Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), passando de um dia com o produto e três sem, para cinco dias sem. Foi a única solução encontrada pela companhia diante do baixo nível no Sistema Botafogo, que trabalha hoje com 46,6% da sua capacidade total.

Se viver em sistema de rodízio d’água já é um sufoco, imagine ver água potável sendo desperdiçada ao ar livre? No cruzamento das ruas Araponga e Asa Branca, na terceira etapa do bairro de Rio Doce, em Olinda, os moradores denunciam que o problema ocorre há quase um ano, desde que a Compesa fez uma obra para trocar uma tubulação num outro trecho do bairro e, segundo eles, não tomou nenhuma atitude em relação às consequências. Por lá, os moradores se dizem cansados de reclamar. “Fica um jogo de empurra entre o setor de obras da Prefeitura e a Compesa, e ninguém faz nada”, queixa-se a dona de casa Luciana Ferreira, 33 anos.

A casa dela, de número 35, foi a mais prejudicada. A tubulação onde ocorre o vazamento passa debaixo do imóvel. De tão úmido, o chão da residência de Luciana, que é de cimento queimado, abriu-se em buracos, e as laterais das paredes estão rachadas. “Minha casa está toda fofa por causa dessa água que não para de jorrar, dá muito medo de o chão se abrir todo. Fora que é foco de dengue”, reclama.

Saindo de Olinda, ao andar pelas ruas do Recife, outro flagrante. No bairro de Santo Amaro, área central da Cidade, um grupo de flanelinhas lava carros com água furtada da tubulação subterrânea. Um buraco no asfalto foi feito para acoplar a mangueira a um dos canos. Em carros de grande porte, eles chegam a utilizar mais de 20 baldes de 15 litros cada um.

Na avaliação da representante do Movimento Menos Perda Mais Água do Pacto Global da ONU, Adriana Leles, a má gestão dos recursos hídricos é preocupante, diante de um cenário de mudanças climáticas – o que reforça a necessidade de enfrentar essas perdas excessivas. Ela cita como exemplo, um case de sucesso do movimento como uma forma de mostrar que poupar água também fortalece a economia. “O volume economizado pela Sanasa (responsável pelo saneamento de Campinas) ao longo de 23 anos, totalizou em 477 milhões de metros cúbicos – cada metro cúbico equivale a mil litros. Esse mesmo volume garante, por exemplo, garante operações anuais de três plantas industriais da Braskem instaladas no Brasil, Estados Unidos e Alemanha pelo período de até sete anos”, compara.

Compesa questiona

Ao comentar o levantamento dos dados nacionais, o integrante do apoio técnico da diretoria de engenharia da Compesa, Daniel Genuíno, fez ponderações. Segundo ele, uma pesquisa necessita de aprofundamento no perfil de consumo, características e dados do sistema de abastecimento de cada município. “Ele (o instituto) pegou uma série de indicadores do sistema nacional para dar um parâmetro geral para cada cidade, como se fosse a realidade”, afirmou.

Segundo Genuíno, “a literatura nacional e internacional não recomenda esse tipo de análise, porque cada sistema opera de forma diferente”, questionou, exemplificando: “A cidade A tem volume d’água distribuído na ordem de 200 litros por segundo e consome 100. Matematicamente, a perda é de 50%. Já a Cidade B tem 5 mil litros por segundo e consome 4 mil. Quem perde mais? Não tem como comparar. Cada sistema funciona de acordo com a realidade de cada lugar”, afirmou.

De acordo com ele, a Compesa investe, em média, R$ 600 milhões por ano em melhorias no sistema de abastecimento. Entre as melhorias, Genuíno ressalta o investimento que a companhia vem fazendo ao longo dos últimos dez anos para setorizar a rede, ou seja, dividi-la em “fatias” menores, a fim de evitar que uma grande área seja afetada quando ocorre um estouramento no sistema de distribuição de água – tendo em vista que sempre é preciso suspender o abastecimento para executar o conserto.

O projeto de setorização envolve a instalação de válvulas redutoras de pressão, macromedidores (equipamentos que controlam as pressões e vazões da rede de distribuição) e substituição de tubulações antigas para garantir maior eficiência operacional e redução de perdas.

Entre os exemplos de setorização, ele citou as obras do Projeto Olinda + Água, que prevê a distribuição de água todos os dias em 15 bairros de Olinda, são eles: Rio Doce, Jardim Atlântico, Jardim Fragoso, Casa Caiada, Bairro Novo, Bultrins, Ouro Preto, Jatobá, Monte, Guadalupe, Bonsucesso, Amaro Branco, Carmo, Varadouro, Santa Tereza. De acordo com a Compesa, o Olinda + Água é o maior programa de abastecimento de água em execução na Região Metropolitana e beneficia 250 mil pessoas em Olinda, quase 60% da população da cidade. As obras iniciaram em março de 2016 e a previsão de conclusão é março de 2021. Na ordem de R$ 134 milhões, os recursos foram financiados pela Compesa e Estado junto ao Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD).

Mas, então, quanta água potável distribuída para cada município é desperdiçada? Para essa pergunta, Genuíno deixou claro que ainda não há resposta. “Só podemos quantificar isso quando dividirmos a rede, ou seja, setorizá-la, implantar o marco medidor, instalar o hidrômetro em cada ligação. Qualquer número que eu der é aproximado e não reflete à realidade. A Compesa só poderá precisar um valor quanto ao balanço de massa (quantidade de água que entra, quantidade consumida e o volume d’água que não chega), quando fecharmos a setorização de uma cidade. E, dessa água que não chega, dizer o que é vazamento e o que é fraude”, justifica.

Consumo controlado

Mas, nem só maus exemplos foram encontrados. Em Paulista, cidade que, segundo o estudo, é a que mais desperdiça água potável no Estado, há um local, o GreenVillage Condomínio Clube, localizado na Estrada do Frio, em Jardim Paulista, onde a realidade é bem diferente. Lá, o consumo de água se tornou individualizado, ou seja, não entra mais nas despesas da administração do condomínio.

O GreenVillage é formado por 15 torres, totalizando 480 apartamentos. Antes de adotar o hidrômetro individual, a dívida do condomínio girava em torno de R$ 37 mil por mês. “Essa mudança obriga os moradores a terem o compromisso de zelar pelo consumo”, comenta o síndico, Danillo Vitor Anjos. Essa obrigação é prevista na lei nº 12.609, mas são poucos os edifícios que a cumprem e instalam marcadores individuais de água. “No nosso caso, notificamos a construtora, que nos entregou o condomínio sem cumprir a lei. A construtora reconheceu e instalou, por conta própria, os medidores”, complementou Anjos. Apesar disso, moradores relatam várias cenas de desperdício no condomínio, que ainda precisam ser combatidas pela administração.

Além de mudar hábitos e adotar atitudes ecológicas no dia a dia, a cabeleireira Grabrielly Silva e o seu marido, o funcionário público Antônio Ricardo Silva, optaram por mecanismos que reduzem o desperdício, ao realizar uma reforma no apartamento. O casal, que mora na torre 9 do condomínio, trocou todas as torneiras por outras que possuem arejador, que mistura ar à água, diminuindo o fluxo, mas mantendo a sensação de volume e direcionando o jato. Por isso, quanto maior a pressão, maior a economia, que varia entre 50% e 80%, segundo fabricantes. “Me dá uma agonia enorme ver pessoas usando água inconscientemente. Logo quando eu e meu marido chegamos para morar aqui, a falta de educação era grande”, relembra.

Essa consciência, diz Gabrielly, não vem de agora. Hoje com 28 anos, ela diz que desde criança sabia do sacrifício de não ter água. “Minha mãe dirigia carros-pipa e levava água para comunidades muito necessitadas. Eu via como era o desespero das pessoas e, a partir disso, criei meus hábitos de economia. Não por uma questão financeira, mas por consciência ambiental mesmo”, salienta.

A preocupação em preservar o recurso é perceptível no apartamento. No banheiro, por exemplo, ela mostrou uma de suas estratégias: manter uma garrafa PET com água dentro do reservatório da descarga. A garrafa ocupa espaço e reduz o volume de água lançada na descarga. “O truque evita o gasto de água e não danifica o equipamento”, afirma Gabrielly. Na prática, ao fazer isso, você economiza o volume relativo à capacidade da garrafa, ou seja, no caso, um litro a menos de água a cada descarga.

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